O futuro da educação passa pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que tem potencial para mudar o Ensino Médio no País. Essa é a opinião do educador, especialista no exame e colunista do Diário, Mateus Prado.

Em entrevista exclusiva, Prado falou sobre o que é preciso fazer para mudar o modelo de ensino atual, que privilegia conteúdo em invés de conhecimento. "O importante para o aluno é ter elementos para julgar situações. A 'decoreba' não tem razão de existir", garantiu.

Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na Universidade de São Paulo, é autor de livros didáticos e presidente de honra do Instituto Henfil, que oferece há dez anos cursinho comunitário com o objetivo de possibilitar acesso a curso pré-vestibular de qualidade a pessoas que não podem arcar com os custos.

DIÁRIO - Como está a educação brasileira hoje?

MATEUS PRADO - A Organização das Nações Unidas definiu quatro pilares para a educação mundial. O primeiro é ‘aprender a aprender'. As escolas brasileiras exageram nisso. Quem passa dias inteiros estudando, faz uma prova difícil e tira oito provou que aprendeu a aprender. Hoje, o Ensino Médio, quando é bem feito, se dedica à educação bancária. O aluno passa três anos aprendendo a aprender. As escolas têm no mínimo oito matérias no currículo. Cada professor aplica duas provas por bimestre. Em três anos, o aluno terá feito 192 provas. E todos os exames avaliam a mesma coisa: se ele aprendeu a aprender. Não se descobre se evoluiu, se o fato de estar naquela escola contribui de fato para a formação. Onde achamos que a educação é boa, os alunos estão só no aprender a aprender. Os cursinhos são especialistas nisso.

DIÁRIO - Nem todos os alunos têm facilidade para decorar conteúdos. A educação exclui a parcela que não tem?

PRADO - Sim, essa prática exclui, mas não quer dizer que os alunos não têm talentos para outras coisas. Aí deveriam entrar os outros três pilares propostos pela ONU. É necessário aprender a fazer, aprender a ser, o que envolve a construção de um projeto de vida, a defesa dessas ideias e os meios para fazê-lo, e aprender a conviver. É preciso debater questões éticas, valorização da democracia, respeito ao meio ambiente, e respeito à diversidade. Estamos muito longe desses quatro.

DIÁRIO - O que precisa mudar para que os estudantes cheguem preparados à universidade?

PRADO - O importante para o aluno é ter elementos para julgar situações, debater e resolver problemas. A ‘decoreba' não tem mais nenhuma razão de existir. Quando o professor ensina o conteúdo e cobra isso numa prova, o aluno mostra que aprendeu a aprender. O adolescente aprende isso muito isso, e segue reproduzindo nos demais anos escolares. Aprender a aprender é necessário, mas temos de avançar. O problema é o excesso de conteúdos. O importante não deveria ser acertar. O aluno acerta com o tempo. A educação conteudista aposta na repetição. Mas se você propõe situações-problema, o aluno pode chegar a conclusões surpreendentes. O professor deixa o papel de sabe-tudo e passa a ser um facilitador do conhecimento.

DIÁRIO - E qual o papel das escolas nesta mudança?

PRADO - As escolas, do jeito que funcionam hoje, desperdiçam talentos. Um traficante, por exemplo, aprendeu a aprender, assimila conteúdos, é bom em estratégia, cálculo, sabe sobre armas, resolve muito bem problemas, tem um projeto de vida, é líder e consegue desenvolver formação ética - diferente da nossa, é verdade. Esse é o tipo de pessoa que fracassou na escola. O sistema escolar excluiu esse garoto. Não levamos hoje os melhores talentos para a universidade. Levamos os com bom desempenho nos testes. Os vestibulares de universidades públicas são como licitações. Quando escolhem as questões que entrarão no exame, já se sabe quem vai acertá-las. Escolhem o aluno.

DIÁRIO - O Exame Nacional do Ensino Médio pode ajudar?

PRADO - O Enem tem capacidade de induzir a reforma do Ensino Médio, que é extremamente conteudista. Na minha época, tive que decorar todos os afluentes do Rio São Francisco, margem direita e esquerda! E isso não tem utilidade nenhuma. O Ensino Médio deve exigir outras competências, como a capacidade de interpretar textos e resolver problemas, que são habilidades que o Enem também exige. Mas os melhores alunos no Enem são os mesmos que ingressam nas melhores universidades do País. Isso porque, para convencer as federais a adotarem a nota no Enem como critério de ingresso, o MEC manteve características da prova que lembrar os vestibulares tradicionais.

DIÁRIO - Mesmo assim, o Enem ainda tem potencial para mudar o Ensino Médio?

PRADO - Sim, pois 30% ainda é conteudista, mas 70% exige interpretação. O que os professores e alunos ainda não sabem e não entenderam é que se cobra no Enem muito menos conteúdo do que é exigido nas provas do Ensino Médio. Ensinamos coisas demais e, logicamente, acabamos empurrando ao aluno coisas que não servem para nada. Não é preciso saber tantos detalhes. As particulares insistem muito nisso. As públicas nem tanto. O abismo entre quem estuda em escolas públicas e privadas ainda é grande. O Enem diminui um pouco essa distância, mas não elimina. As grandes redes de ensino são contra essas mudanças

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Menu Atas

Comment

Destaque

banner

Join with us!

Marcadores

Entri yang Diunggulkan

Justiça determina que Município de Buriticupu atualize dados da Covid-19

Prefeito:Z Gomes. Atendendo a pedido do Ministério Público do Maranhão (MPMA), a Justiça determinou, em 11 de junho, que o Município de Buri...

Formulir Kontak

Nome

E-mail *

Mensagem *

Free and premium blogger templates

Iklan

Tổng số lượt xem trang

NotíciasLihat lainnya

Cari Blog Ini

NotíciasLihat lainnya

Enem vai mudar o Ensino Médio no País!!!

O futuro da educação passa pelo Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que tem potencial para mudar o Ensino Médio no País. Essa é a opinião do educador, especialista no exame e colunista do Diário, Mateus Prado.

Em entrevista exclusiva, Prado falou sobre o que é preciso fazer para mudar o modelo de ensino atual, que privilegia conteúdo em invés de conhecimento. "O importante para o aluno é ter elementos para julgar situações. A 'decoreba' não tem razão de existir", garantiu.

Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na Universidade de São Paulo, é autor de livros didáticos e presidente de honra do Instituto Henfil, que oferece há dez anos cursinho comunitário com o objetivo de possibilitar acesso a curso pré-vestibular de qualidade a pessoas que não podem arcar com os custos.

DIÁRIO - Como está a educação brasileira hoje?

MATEUS PRADO - A Organização das Nações Unidas definiu quatro pilares para a educação mundial. O primeiro é ‘aprender a aprender'. As escolas brasileiras exageram nisso. Quem passa dias inteiros estudando, faz uma prova difícil e tira oito provou que aprendeu a aprender. Hoje, o Ensino Médio, quando é bem feito, se dedica à educação bancária. O aluno passa três anos aprendendo a aprender. As escolas têm no mínimo oito matérias no currículo. Cada professor aplica duas provas por bimestre. Em três anos, o aluno terá feito 192 provas. E todos os exames avaliam a mesma coisa: se ele aprendeu a aprender. Não se descobre se evoluiu, se o fato de estar naquela escola contribui de fato para a formação. Onde achamos que a educação é boa, os alunos estão só no aprender a aprender. Os cursinhos são especialistas nisso.

DIÁRIO - Nem todos os alunos têm facilidade para decorar conteúdos. A educação exclui a parcela que não tem?

PRADO - Sim, essa prática exclui, mas não quer dizer que os alunos não têm talentos para outras coisas. Aí deveriam entrar os outros três pilares propostos pela ONU. É necessário aprender a fazer, aprender a ser, o que envolve a construção de um projeto de vida, a defesa dessas ideias e os meios para fazê-lo, e aprender a conviver. É preciso debater questões éticas, valorização da democracia, respeito ao meio ambiente, e respeito à diversidade. Estamos muito longe desses quatro.

DIÁRIO - O que precisa mudar para que os estudantes cheguem preparados à universidade?

PRADO - O importante para o aluno é ter elementos para julgar situações, debater e resolver problemas. A ‘decoreba' não tem mais nenhuma razão de existir. Quando o professor ensina o conteúdo e cobra isso numa prova, o aluno mostra que aprendeu a aprender. O adolescente aprende isso muito isso, e segue reproduzindo nos demais anos escolares. Aprender a aprender é necessário, mas temos de avançar. O problema é o excesso de conteúdos. O importante não deveria ser acertar. O aluno acerta com o tempo. A educação conteudista aposta na repetição. Mas se você propõe situações-problema, o aluno pode chegar a conclusões surpreendentes. O professor deixa o papel de sabe-tudo e passa a ser um facilitador do conhecimento.

DIÁRIO - E qual o papel das escolas nesta mudança?

PRADO - As escolas, do jeito que funcionam hoje, desperdiçam talentos. Um traficante, por exemplo, aprendeu a aprender, assimila conteúdos, é bom em estratégia, cálculo, sabe sobre armas, resolve muito bem problemas, tem um projeto de vida, é líder e consegue desenvolver formação ética - diferente da nossa, é verdade. Esse é o tipo de pessoa que fracassou na escola. O sistema escolar excluiu esse garoto. Não levamos hoje os melhores talentos para a universidade. Levamos os com bom desempenho nos testes. Os vestibulares de universidades públicas são como licitações. Quando escolhem as questões que entrarão no exame, já se sabe quem vai acertá-las. Escolhem o aluno.

DIÁRIO - O Exame Nacional do Ensino Médio pode ajudar?

PRADO - O Enem tem capacidade de induzir a reforma do Ensino Médio, que é extremamente conteudista. Na minha época, tive que decorar todos os afluentes do Rio São Francisco, margem direita e esquerda! E isso não tem utilidade nenhuma. O Ensino Médio deve exigir outras competências, como a capacidade de interpretar textos e resolver problemas, que são habilidades que o Enem também exige. Mas os melhores alunos no Enem são os mesmos que ingressam nas melhores universidades do País. Isso porque, para convencer as federais a adotarem a nota no Enem como critério de ingresso, o MEC manteve características da prova que lembrar os vestibulares tradicionais.

DIÁRIO - Mesmo assim, o Enem ainda tem potencial para mudar o Ensino Médio?

PRADO - Sim, pois 30% ainda é conteudista, mas 70% exige interpretação. O que os professores e alunos ainda não sabem e não entenderam é que se cobra no Enem muito menos conteúdo do que é exigido nas provas do Ensino Médio. Ensinamos coisas demais e, logicamente, acabamos empurrando ao aluno coisas que não servem para nada. Não é preciso saber tantos detalhes. As particulares insistem muito nisso. As públicas nem tanto. O abismo entre quem estuda em escolas públicas e privadas ainda é grande. O Enem diminui um pouco essa distância, mas não elimina. As grandes redes de ensino são contra essas mudanças

Comentários

geralLihat lainnya

NotíciasLihat lainnya

geralLihat lainnya

Related Post

NotíciasLihat lainnya

Political News

geralLihat lainnya

Our Brochure

3.5 mb, PDF
2.3 mb, PDF

Advertise Here

Advertise Here

Suport

Get in touch with contact and get a quote form.

Monday-Friday: 9am to 5pm

Saturday: 10am to 2pm

Sunday: Closed

banner

Economy

DAILY DIGEST

We remain true to the same principles on which our company was founded over a hundred years ago.

Sport

CONTACT INFO

You can always contact with us via email or phone. Get in touch with contact and get a quote form.

1220 Manado Trans Sulawesi, BolTim 38555

0438-123-4567

contact@example.com

FAX: (123) 123-4567

Serives

polio