O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), não tem peso na consciência.

É o que se depreende de uma entrevista dele ao Correio Braziliense, publicada na última sexta-feira.

São duas páginas de pingue-pongue com o político maranhense, senador pelo Amapá, de 81 anos.

Cito aqui a entrevista de Sarney porque sempre fiquei e fico uma dúvida: esses "homens públicos" dormem tranquilos com o país que comandam naufragando, sempre?

Sarney serve como um retrato, com suas respostas e sua convicção de fez o melhor e trabalha para o país.

Exemplos de como um indivíduo não se sente responsável pela bandalheira da nação:
Como é estar sempre no topo do poder?
- Sempre estive apanhando. Quando era estudante fui preso pela ditadura Vargas. Fui contra Getúlio (....) Não é esse mar de rosas que todo mundo pode pensar que é. O que significa estar no topo? Significa que você está exposto e disposto à luta.


A pergunta é foi feita porque Sarney está no poder há meio século.

Qual o período mais cruel da política para o senhor?
- Muitas vezes, fui submetido a um período de injustiças muito grande. E de crueldade. São feridas que não cicatrizam. E que a política deixa na gente. Foi com grande amargura que eu atravessei aquele período no Senado (com as denúncias de atos secretos e privilégios na Casa ao longo do ano de 2009) e acho que foi uma das coisas mais injustas que vivi. Um pastel de vento que fizeram exclusivamente por motivos da guerra política para liquidar a pessoa que é tida como adversária. Eu serei sincero em dizer que não cicatrizou.


A bandalheira no Senado continua. Sarney preside a Casa pela quarta-vez. Ele só não perdeu o cargo e o mandato porque contou com a força do governo para segurá-lo. Aliou-se a Lula desde o primeiro mandato do petista em 2003. A caixa-preta do Senado mantém servidores que ganham R$ 30 mil por mês, acima do teto constitucional, que é o vencimento de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e do presidente da República. Agaciel Maia, que era diretor-geral do Senado, e que perdeu o cargo depois das denúncias, foi colocado lá por Sarney, e hoje é deputado distrital em Brasília. Sarney também ajudou a dar sustentação à ditadura militar.

A Academia de Letras é mais importante do que a política?
- Olha, a academia me deu mais alegrias do que a Presidência. Minha vocação era a literatura. A política, para mim, foi um destino.


Impressionante! Destino??!! O indivíduo luta com unhas, dentes e todo o arsenal disponível nesse tipo de atividade para manter cargos, para si e apaniguados! Tanto que lutou para manter-se presidente do Senado pela quarta-vez, para livrar a si próprio a um dos filhos atolado em denúncias de corrupção no Maranhão.

O senhor fez tudo pelo seu estado?
- Acho que nada que existe no Maranhão deixou de ter a minha mão, dos últimos 50 anos para cá. (...)

Segue-se uma lista de obras no estado.

Mas são os indicadores sociais mais baixos do país, um estado paupérrimo...
- Há um erro muito grande quando dizem que o Maranhão é o estado mais pobre do Brasil. Pelo PIB, o Maranhão é o 14º estado do Brasil. Estamos na frente de Mato Grosso do Sul. Agora, a pobreza que dizem, os índices que dão do Maranhão, é pelo IDH. O Brasil é a sétima economia do mundo e o IDH brasileiro é o 81º. Se formos considerar por isso, o Brasil é menor. O IBGE tem dois mil índices e então, três, quatro, são piores no Maranhão. Mas se formos buscar na periferia de São Paulo, na Baixada Fluminense, encontramos índices piores do que os do Maranhão. (...)

O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) foi criado para corrigir uma tremenda injustiça. O PIB (Produto Interno Bruto) a que se refere Sarney é cruel. Divide a riqueza de uma região pelo número de habitantes. Por exemplo: se num grupo de mil pessoas há riqueza estimada em um milhão, o valor é dividido por mil, mesmo que toda a riqueza pertença a apenas um indivíduo. E o resultado é apresentado como sendo a renda per capita (por cabeça) de todos, mesmo que, repito, somente um cidadão seja o detentor de toda a riqueza do grupo.

Para terminar com meus exemplos sobre a extensa entrevista do ex-presidente da República.

Mas o governo do senhor terminou com 80% de inflação.
- Ora, a inflação com correção monetária não é inflação. Eu mandei calcular em dólar, com se calcula o PIB, quanto foi a inflação no meu tempo. Foi de 17,4%. Qual foi a menor taxa de desemprego da história do Brasil? Foi no meu tempo. (...)

No governo de José Sarney (1985-1990), a inflação chegou a 80% ao mês. Era um inferno. Agora o dito-cujo arranja índices para dizer que a situação não era tão ruim assim.

Leitor, pincei algumas perguntas e respostas de José Sarney como exemplo do que os "homens públicos" arquitetam para se livrarem de culpa pela oceânica miserabilidade que impera no Brasil.

No caso, específico de Sarney, sempre fiquei curioso com sua divisão em dois personagens: o intelectual e o político.

Seus artigos em jornais não parecem partir do mesmo homem que está no topo da política brasileira há meio século. Nem do homem voraz nos bastidores para manter seu poder.

Um exemplo é governo petista. Lula considerava Sarney desafeto. Viraram aliados, a ponto de um ajudar o outro a se safar de alguma penalidade pelos casos de corrupção. Sarney ajudou Lula a sair impune do maior caso de corrupção política do País, o mensalão. Lula auxiliou Sarney a sair livre do escândalo de corrupção no Senado em 2009.

Com esta entrevista de José Sarney podemos entender que os "homens públicos" dormem tranquilos, sim. Apesar de a nação que dizem governar estar do jeito que se encontra: ladeira abaixo, sem educação, sem segurança, sem saúde, sem estradas, sem esperança...

E com roubos, roubos, roubos de dinheiro público... Nos municípios, nos estados e na União.

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O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), não tem peso na consciência.

É o que se depreende de uma entrevista dele ao Correio Braziliense, publicada na última sexta-feira.

São duas páginas de pingue-pongue com o político maranhense, senador pelo Amapá, de 81 anos.

Cito aqui a entrevista de Sarney porque sempre fiquei e fico uma dúvida: esses "homens públicos" dormem tranquilos com o país que comandam naufragando, sempre?

Sarney serve como um retrato, com suas respostas e sua convicção de fez o melhor e trabalha para o país.

Exemplos de como um indivíduo não se sente responsável pela bandalheira da nação:
Como é estar sempre no topo do poder?
- Sempre estive apanhando. Quando era estudante fui preso pela ditadura Vargas. Fui contra Getúlio (....) Não é esse mar de rosas que todo mundo pode pensar que é. O que significa estar no topo? Significa que você está exposto e disposto à luta.


A pergunta é foi feita porque Sarney está no poder há meio século.

Qual o período mais cruel da política para o senhor?
- Muitas vezes, fui submetido a um período de injustiças muito grande. E de crueldade. São feridas que não cicatrizam. E que a política deixa na gente. Foi com grande amargura que eu atravessei aquele período no Senado (com as denúncias de atos secretos e privilégios na Casa ao longo do ano de 2009) e acho que foi uma das coisas mais injustas que vivi. Um pastel de vento que fizeram exclusivamente por motivos da guerra política para liquidar a pessoa que é tida como adversária. Eu serei sincero em dizer que não cicatrizou.


A bandalheira no Senado continua. Sarney preside a Casa pela quarta-vez. Ele só não perdeu o cargo e o mandato porque contou com a força do governo para segurá-lo. Aliou-se a Lula desde o primeiro mandato do petista em 2003. A caixa-preta do Senado mantém servidores que ganham R$ 30 mil por mês, acima do teto constitucional, que é o vencimento de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e do presidente da República. Agaciel Maia, que era diretor-geral do Senado, e que perdeu o cargo depois das denúncias, foi colocado lá por Sarney, e hoje é deputado distrital em Brasília. Sarney também ajudou a dar sustentação à ditadura militar.

A Academia de Letras é mais importante do que a política?
- Olha, a academia me deu mais alegrias do que a Presidência. Minha vocação era a literatura. A política, para mim, foi um destino.


Impressionante! Destino??!! O indivíduo luta com unhas, dentes e todo o arsenal disponível nesse tipo de atividade para manter cargos, para si e apaniguados! Tanto que lutou para manter-se presidente do Senado pela quarta-vez, para livrar a si próprio a um dos filhos atolado em denúncias de corrupção no Maranhão.

O senhor fez tudo pelo seu estado?
- Acho que nada que existe no Maranhão deixou de ter a minha mão, dos últimos 50 anos para cá. (...)

Segue-se uma lista de obras no estado.

Mas são os indicadores sociais mais baixos do país, um estado paupérrimo...
- Há um erro muito grande quando dizem que o Maranhão é o estado mais pobre do Brasil. Pelo PIB, o Maranhão é o 14º estado do Brasil. Estamos na frente de Mato Grosso do Sul. Agora, a pobreza que dizem, os índices que dão do Maranhão, é pelo IDH. O Brasil é a sétima economia do mundo e o IDH brasileiro é o 81º. Se formos considerar por isso, o Brasil é menor. O IBGE tem dois mil índices e então, três, quatro, são piores no Maranhão. Mas se formos buscar na periferia de São Paulo, na Baixada Fluminense, encontramos índices piores do que os do Maranhão. (...)

O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) foi criado para corrigir uma tremenda injustiça. O PIB (Produto Interno Bruto) a que se refere Sarney é cruel. Divide a riqueza de uma região pelo número de habitantes. Por exemplo: se num grupo de mil pessoas há riqueza estimada em um milhão, o valor é dividido por mil, mesmo que toda a riqueza pertença a apenas um indivíduo. E o resultado é apresentado como sendo a renda per capita (por cabeça) de todos, mesmo que, repito, somente um cidadão seja o detentor de toda a riqueza do grupo.

Para terminar com meus exemplos sobre a extensa entrevista do ex-presidente da República.

Mas o governo do senhor terminou com 80% de inflação.
- Ora, a inflação com correção monetária não é inflação. Eu mandei calcular em dólar, com se calcula o PIB, quanto foi a inflação no meu tempo. Foi de 17,4%. Qual foi a menor taxa de desemprego da história do Brasil? Foi no meu tempo. (...)

No governo de José Sarney (1985-1990), a inflação chegou a 80% ao mês. Era um inferno. Agora o dito-cujo arranja índices para dizer que a situação não era tão ruim assim.

Leitor, pincei algumas perguntas e respostas de José Sarney como exemplo do que os "homens públicos" arquitetam para se livrarem de culpa pela oceânica miserabilidade que impera no Brasil.

No caso, específico de Sarney, sempre fiquei curioso com sua divisão em dois personagens: o intelectual e o político.

Seus artigos em jornais não parecem partir do mesmo homem que está no topo da política brasileira há meio século. Nem do homem voraz nos bastidores para manter seu poder.

Um exemplo é governo petista. Lula considerava Sarney desafeto. Viraram aliados, a ponto de um ajudar o outro a se safar de alguma penalidade pelos casos de corrupção. Sarney ajudou Lula a sair impune do maior caso de corrupção política do País, o mensalão. Lula auxiliou Sarney a sair livre do escândalo de corrupção no Senado em 2009.

Com esta entrevista de José Sarney podemos entender que os "homens públicos" dormem tranquilos, sim. Apesar de a nação que dizem governar estar do jeito que se encontra: ladeira abaixo, sem educação, sem segurança, sem saúde, sem estradas, sem esperança...

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